Entrevista – Pitty

Em entrevistas, Pitty faz o tipo de artista que jamais evita confrontos e perguntas que fujam do senso comum. Faz parte da sua personalidade não ser chapa branca ou dar respostas evasivas. Independentemente do assunto, sempre há uma resposta para a indagação do repórter. Posturas subversivas como a da cantora baiana são cada vez mais raras na música nacional, que hoje vive uma época permeada por ídolos de plástico, sem personalidade ou opinião a respeito de nada. Nem mesmo sobre as músicas que vão gravar ou o direcionamento de suas carreiras.

Já Pitty subverte esse panorama. Principalmente agora, que escolheu lançar um CD e DVD com repertório baseado em músicas lado b de sua carreira. Com pouquíssimos hits e inúmeras músicas quase desconhecidas, “Trupe Delirante” (Deckdisc) foi gravado no Circo Voador, no Rio de Janeiro, em um show que além de um repertório alternativo, ainda abriu mão de recursos cênicos. A concepção diferenciada foi desenvolvida pela própria cantora baiana.

Pitty alega que sua preocupação era gravar um DVD com um formato menos manjado e que não apelasse para a regravação de velhos hits. “É importante sair da zona de conforto. Utilizar fórmulas batidas é chato e covarde. Arte é para se expressar e para suprir uma necessidade primeiro individual, depois a dos outros”, comenta a artista. E toda essa opção arriscada teve o respaldo de sua gravadora, a Deck. Ciente do poder de fogo de sua contratada, a discográfica bancou o projeto, sem temer vendagens baixas. A gravadora comandada por João Augusto Ramos tem na figura de Pitty sua principal fonte de lucro e sabe que os fãs da cantora são fieis. Portanto, mesmo que “Trupe Delirante” não seja um projeto de sucesso absoluto, pelos menos entre os grandes fãs da cantora, terá êxito garantido.

No show, além da banda (que agora também conta com o tecladista Brunno Cunha), Pitty recebe convidados. Os escolhidos foram Hique Gomez, do grupo Tangos e Tragédias, que toca violino em “Água Contida”, e Fábio Cascadura, que aparece em “Senhor das Moscas”, clássico da banda baiana Cascadura.

Na entrevista exclusiva a seguir, Pitty comenta os rumos escolhidos para a gravação desse projeto. Mas não é só. Como todo bom papo com a cantora, o assunto descamba para outros temas. E assim a artista comenta sobre os artistas que mais admira no cenário das música nacional, além de explicar o motivo pelo qual jamais pensou em ser produzida por outro profissional além de Rafael Ramos. (Por Helder Maldonado)

SUCESSO e-mailing – Pitty, você lançou o DVD “Trupe Delirante” com repertório baseado em poucos hits e muitas músicas lado B. Não teme que o produto tenha pouco apelo popular?
Pitty – Não, já que em momento algum a minha preocupação era essa. Queria um DVD diferente, de carreira, com novidades, e queria justamente fugir dessa coisa manjada de apelar para velhos hits apenas pra ser mais popular. Isso seria muito chato e covarde. É importante sair da zona de conforto.

SUCESSO e-mailing – Por que optou por um show sem nenhum recurso cênico?
Pitty – Enxergo hoje em dia uma megalomania insuportável e oca. Muita luz, muita explosão, gente descendo do teto, uma coisa faraônica – e pouco ou zero de conteúdo no que realmente importa, que é a música. Zero de letras interessantes, zero carisma, zero talento e muita grana. Quisemos experimentar o avesso disso. A música, a banda, o público, um show de verdade sem se esconder atrás de recursos visuais.

SUCESSO e-mailing – Acredita que, inspiradas pelo U2 e seus palcos portentosos, muitas bandas têm dado mais atenção a montar grandes espetáculos em vez de bons repertórios?
Pitty – Pois é. Basta ter um pouco mais de grana, que o artista ou a banda se sente na obrigação de ostentar isso de alguma forma e falar de boca cheia: “gastamos milhões”. Não que não seja bonito. Existem shows bem legais e que contam com uma produção maior. Mas as luzinhas e as distrações perdem totalmente o valor se não existir um talento forte por trás. E fica aquela coisa que convence quem só enxerga o valor da ostentação e não sabe avaliar a consistência do artista.

SUCESSO e-mailing – A cada dois anos, você grava um DVD. Mas ao contrário de muitos artistas, seus projetos em vídeo não são repetitivos. Como são concebidos os conceitos para cada novo DVD lançado?
Pitty – A gente faz algum DVD quando pinta uma ideia nova para isso. Não tem época certa, nem nada. Talvez por isso eles sejam tão diferentes entre si: é que cada um nasceu de uma ideia distinta.

SUCESSO e-mailing – Nesse DVD, há um tecladista no palco. Efetivamente, o que a participação dele na banda pode mudar no som, já que você sempre fez um rock com riffs e bases que dispensassem teclados?
Pitty – Quis botar teclado dessa vez para fazer uma experiência. Achei que isso acrescentaria uma textura diferente às músicas. E isso realmente aconteceu. A base primordial ainda é bateria, baixo e guitarra. O teclado funciona como um elemento subliminar muitas vezes imperceptível, mas que traz um mistério e uma camada extra à sonoridade da banda.

SUCESSO e-mailing – Em todos projetos que você lança, pelo menos uma pequena tiragem sai em vinil. Qual o público alvo dessa empreitada e como tem sido a aceitação dos fãs, já que poucas pessoas compram produtos oficiais?
Pitty – A gente faz vinil porque a gente ama vinil. A sonoridade, a capa grandona, o ritual de se escutar um LP na vitrola. E ele é feito para todas as pessoas que, assim como nós, também curtem isso tudo. A aceitação tem sido ótima. Com esse revival na produção nacional e a reabertura da Polysom, muita gente que não tinha costume de escutar vinil também se apaixonou pela coisa.

SUCESSO e-mailing – Duda e Martin tocaram no Cascadura e hoje estão em sua banda. Convocar o Fabio para participar do projeto foi uma forma de agradecê-lo por ceder esses dois importantes músicos?
Pitty – Não necessariamente, já que Duda viveu só uma pequena fase no Cascadura e o Martin a gente já conhecia de outros carnavais. Chamei Fábio porque, além dele ser meu parceiro numa música chamada “Sob O Sol”, é um dos grandes compositores desse país e um talento da minha terra natal.

SUCESSO e-mailing – Nesse DVD, percebe-se que seu público já não é mais essencialmente adolescente. Como se sente sendo um dos poucos artistas de rock que conseguiu amadurecer junto com o público nos últimos anos no Brasil?
Pitty – Acho ótimo, e necessário. Isso é condizente com a nossa própria situação: somos adultos. É mais fácil pra gente dialogar com pessoas que entendem nossos gostos e que estão na mesma fase da vida que nós. Todas as faixas etárias são bem vindas e hoje no show está bem misturado; mas é muito bom perceber a galera mais velha finalmente deixando o preconceito de lado e entendendo do que a gente realmente está falando.

SUCESSO e-mailing – Junto a isso, você nota que o cenário mainstream pouco se renovou depois do surgimento de sua banda?
Pitty – Apareceram algumas coisas, mas realmente a renovação tem sido mais lenta. Não sei exatamente o porquê, mas sinto isso também.

SUCESSO e-mailing – Você tem incluído influências de tango, soul e outros estilos em sua música. Como é a recepção dos fãs a essas novidades?
Pitty – Pelo que observo, muito boa. Mas não me baseio nisso pra fazer as coisas. E acho que o bom é manter por perto as pessoas que se identificam com o que você faz, seja lá o que você faça. Arte é para se expressar e para suprir uma necessidade primeiro individual, depois a dos outros.

SUCESSO e-mailing – O Segunda Sem Lei, programa que você apresenta na Transamérica FM, conseguiu dar visibilidade às bandas alternativas?
Pitty – Acredito que sim. Toda semana tocamos uma banda independente no programa e a repercussão é muito boa. Os ouvintes adoram poder conhecer coisas novas e as bandas ficam felizes de finalmente ter sua música tocada em rede nacional.

SUCESSO e-mailing – Entre os novos nomes do rock indie, em quais você apostaria suas fichas hoje, caso fosse uma investidora ou olheira de gravadora?
Pitty – Apostaria na Maglore, no Criolo MC, no Emicida, no Cascadura, no Apolônio. São todos muito bons.

SUCESSO e-mailing – Você sempre criticou as rádios, que estão com programações cada vez mais fracas. Como isso reflete no seu trabalho? Você tem que se render aos moldes radiofônicos atuais, escolhendo sempre músicas mais leves para divulgar ou regravando-as em versões acústicas?
Pitty – Eu tento me adequar na medida do possível. Tenho meus limites com relação à concessões. Regravar versão acústica ou deixar a rádio remixar meu som, por exemplo, considero um desrespeito com a obra. Gosto de sons acústicos, mas quando fizer vai ser por vontade artística e não por imposição. Entendo que não existe mais rádio só de rock, fica tudo misturado e as bandas acabam destoando dentro da programação. Essa tentativa deles de encaixar tudo num mesmo nicho é válida, porém perigosa: arrisca as bandas perderem cada vez mais a própria identidade e ficarem umas iguais as outras, com um som padronizado. Aliás, é o que já acontece, né? Acho triste.

SUCESSO e-mailing – Aproveitando o gancho: um acústico nunca te passou pela cabeça? Afinal, o Luau MTV, no qual você apresentou suas músicas nesse formato, foi um projeto interessante.
Pitty – Eu gosto desse formato, acho bonito mesmo. Mas acho que tem hora pra tudo, e essa hora pra gente ainda não chegou.

SUCESSO e-mailing – É verdade que “Máscara” (pelo peso) e “Me Adora” (pelo palavrão) foram as músicas que encontraram mais restrições para serem trabalhadas e, no fim, as que alcançaram melhores resultados?
Pitty – Não sei se dentre todas as outras que foram single alcançaram os melhores resultados; mas com certeza o resultado foi muito melhor do que o esperado com relação à elas.

SUCESSO e-mailing – Você ainda é contratada de uma gravadora. Mas movimentos como sertanejo universitário e o tecnobrega demonstram que é possível fazer música sem ser contratado de uma discográfica. Hoje, quais são os pontos positivos de estar dentro de fazer parte do cast da Deck?
Pitty – Liberdade criativa total, ideias em comum com relação a como lidar com mídias digitais e como conduzir uma carreira, a coisa dos lançamentos em vinil. Bastante coisa, na verdade. E Rafael Ramos é meu grande parceiro de ideias pra vida, pra arte, pra música, pra tudo. Ele tem paixão pela coisa, é idealista e nunca se acomoda. Gosta de arriscar, de fazer coisas novas e diferentes, de sempre ter coragem de dar um passo a frente – que nem eu. Pra mim é importante ter gente assim por perto.

SUCESSO e-mailing – Você é favor de disponibilizar seus discos na internet para download gratuito?
Pitty – Sou, do jeito certo. Existem formas de fazer isso acontecer sem abrir mão da remuneração necessária para se pagar os custos do projeto e as pessoas que trabalharam nele. O download pode ser gratuito para o público, bancado por um patrocinador que vai ter sua marca vista cada vez que alguém entrar naquela página, por exemplo.

SUCESSO e-mailing – Acredita que o futuro da música é lançar singles e não mais discos inteiros?
Pitty – Espero que não. Eu gosto da obra inteira, do disco que se entrelaça música por música e conta uma história.

SUCESSO e-mailing – Na sua concepção, quais artistas hoje fazem o som ideal para formar uma nova geração de ouvintes de música boa e variada?
Pitty – Queens of The Stone Age, Foo Fighters, Them Crooked Vultures, PJ Harvey e todos os projetos do Jack White e do Damon Albarn.

SUCESSO e-mailing – Você foi ao Coachella (grande festival musical da Califórnia). Qual a principal diferença de mentalidade do público e de estrutura que pôde notar em relação aos festivais nacionais?
Pitty – Nossa, é muito diferente. As pessoas são educadas, se respeitam. Coisas simples e básicas, como jogar lixo no lixo ou respeitar uma fila de banheiro, por exemplo, são realidade. Ou pedir desculpas se esbarrar no outro. Não vi uma briga, uma discussão sequer. E não havia polícia fardada, o clima de desrepressão acontece porque as pessoas parecem saber se comportar. Em relação aos shows, o público é muito participativo, mas sem esperar ser comandado, com autonomia. E a estrutura é absurda. Banheiros químicos limpos e sempre disponíveis, lixeira em todos os cantos, palco, som e luz impecáveis.

SUCESSO e-mailing – Pitty, você sempre investiu em clipes. Hoje ainda vale a pena investir nesse tipo de mídia?
Pitty – Acho que sim. O lance é que eu gosto de fazer, me divirto muito criando roteiros e filmando. Gosto de cinema, e talvez a linguagem de videoclipe seja o que me aproxima mais desse universo.

SUCESSO e-mailing – Mesmo consolidada e sem abrir restrições em sua música, ainda enfrenta acusações de ser um produto fabricado em gravadora?
Pitty – Por incrível que pareça, ainda tem gente que não se livrou dessa doença da “teoria da conspiração” e acha que certas coisas não podem ser verdade. Uma pena, estão deixando de enxergar que é possível.

SUCESSO e-mailing – Nunca pensou em trabalhar com outro produtor que não o Rafael Ramos, para ver como seria o resultado?
Pitty – Já, mas a gente funciona tão bem junto e ele me alimenta tanto que isso nunca foi uma necessidade real. Pode ser que role algum dia, mas acredito que mesmo assim ele vai estar por perto. Existem pouquíssimos produtores de rock no Brasil que valem a pena, e Rafa é um deles.

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